Aguinaldo Silva, autor da novela das oito, “Duas Caras” (Rede Globo), conseguiu um feito nunca antes visto na teledramaturgia brasileira: ser protagonista de seu próprio folhetim de ficção. Com idas e vindas, viagens, ameaças de morte e passaportes vencidos, ele faz mais sucesso que a protagonista “sem sal” Maria Paula, feito pela atriz-cantora Marjorie Estiano.
Confira o último texto postado no blog do autor:
Rio-Lisboa-Rio em duas horas!
por Aguinaldo Silva
Fonte: http://bloglog.globo.com/aguinaldosilva/
Agora que já aconteceu e foi resolvido, vou contar tudo a vocês pra que possamos rir juntos. Conforme anunciado, decidi tirar uns dias de férias em Lisboa. Viajo apenas com uma bolsa de mão dentro da qual vão os produtos de higiene e o laptop, pois lá eu tenho tudo. Entrei no táxi na hora aprazada e falei pro motorista:
“Direto pro aeroporto!”
E fomos já quase voando.
Chegueiano balcão da TAP, apresentei passagem e passaporte, a atendente olhou o documento, depois me encarou com um olhar cheio de suspeita, tornou a olhar o passaporte, e afinal me encarou outra vez, sem piscar sequer, agora com jeito de quem está diante de um bandido perigoso… E disse:
“Sinto muito, mas o senhor está proibido de sair do país”.
Assumi ares de falcão prestes a alçar vôo e grasnei, tal como a ave em questão faria numa situação de inusitada feito essa:
“Ô QUÊ????????”
E ela respondeu de novo, na maior calma:
“É isso mesmo, o senhor não pode deixar o Brasil”.
Depois de todos os acontecimentos recentes?!…
Claro que, como aconteceu com a coitadinha da Clara aí embaixo, perdi o senso. Pensei em sair correndo pra delegacia mais próxima, mas me contive, pois tive certeza que cada pessoa no entorno era um agente federal pronto pra me dar uma rasteira, me imobilizar no chão e me por algemas se eu me fizesse de besta.
Então apelei pra arma que uso mais facilmente – as palavras. E, fingindo indignação digna de um cidadão ultrajado gritei:
“Mas então voltamos aos tempos da ditadura, quando um cidadão de bem podia ser barrado ao tentar sair pelo aeroporto? Que história é essa, me diga, não posso deixar o país por quê????????”
E a atendente, na maior calma, me respondeu:
“Muito simples senhor: porque o seu passaporte está vencido”.
E me estendeu de volta o documento, após o que chamou: “o próximo!”
Arrebatei o passaporte das mãos dela, olhei a data, mais incrédulo que aquele senhor lá do Irajá que sempre me escreve, e constatei: tinha vencido sim, no dia 27 de outubro de 2007, e nós já estávamos na segunda semana de novembro.
Arrasado, peguei meus badulaques e segui pra casa da viagem mais rápida que fiz em toda a minha vida: casa/Galeão/casa, com direito a duas passagens pelas favelas monumentais e bem diferentes da Portelinha ali na Linha Amarela.
Dia seguinte fui ao shopping Via Parque, e lá me atendeu um policial, a ostentar no peito aquele distintivo belíssimo (pois nem o FBI tem um distintivo tão bonito quanto a da Polícia Federal do Presidente Lula). Em poucos segundos dei entrada no novo passaporte, que agora já está em minhas mãos: é azul e tem várias bossas destinadas a ajudar na nossa identificação durante nossos périplos por este louco e insensato mundo.
Agora sim, estava prestes a começar tudo de novo: casa, aeroporto, avião da TAP, o Mare Nostrum imenso lá embaixo e – alô NG – afinal: Lisboa!
Só que, nesse intervalo, alguma coisa mudou em mim, pois eu tive tempo de me perguntar: eu, tirar férias da novela que afinal de contas é minha – e só minha -, e abandonar pelo menos trezentas pessoas abnegadas, que dependem do meu trabalho? Não! Chega de bancar o garoto mimado.
Antes mesmo de começar minhas férias acabaram. A partir de agora volto a ser o operário padrão de sempre, disposto a derramar até o sangue pelo bom andamento do meu trabalho. Mas agora sem aceitar provocações, sem ligar para implicâncias, futricas ou ódios, centrado apenas no que vale a pena – a viagem que levará DUAS CARAS ao bom porto.
Agora, até o fim da novela, estarei zen de novo… E duvido que alguém mais consiga me tirar desse estado.