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“O Abajur Lilás” leva a marginalidade contemporânea ao teatro
Postado em (Cênicos CULT, Dica CULT) por admin em 29-07-2009
Tags: Fortaleza, Teatro José de Alencar

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por Thiago Marinho
imagens: Marcello Holanda e Anderson Santiago
A partir deste sábado (1° de agosto), e durante todos os finais de semana (sábados e domingo) de agosto, o Grupo Imagens de Teatro, em comemoração aos 10 anos da morte do dramaturgo Plínio Marcos, leva ao palco do Teatro José de Alencar (Sala Nadir Papy Saboia), a peça “O Abajur Lilás“. O espetáculo faz parte do projeto “Trilogia do Maldito”, em que serão montados também nos anos que se seguem, “Barrela” e “Navalha na Carne”. O espetáculo tem o apoio cultural do ZONAMIX.
“O Abajur Lilás” conta o drama de três prostitutas torturadas pelo cafetão que quer descobrir quem quebrou o abajúr lilás do seu quarto. A trama foi escrita há mais de 30 anos, transcende o momento, a circunstância e infelizmente, resiste ao tempo, demonstrando a extrema atualidade de seu contexto. Ação dramática, humana e de alta significância, “O Abajur Lilás” joga atores e público no olho do furacão, levando-os às entranhas do submundo que preferem ignorar existir, fazendo-os cúmplices privilegiados do mundo de Plínio Marcos. Este universo denso e marginal invade os palcos do teatro cearense.
O grupo mergulhou em uma pesquisa profunda, tanto da obra como do universo que o autor traz para o seu texto, através de análises sobre a vida, obra e contextualização histórica, prosseguindo com pesquisa de campo, palestras, seminários, oficinas, filmes e vivência em entidades, enriquecido por laboratórios onde os atores visitaram cinemas pornôs, casas de prostituição, saunas, bares e praças, locais onde os personagens retratados na peça viveriam.
Esse é o princípio que torna a obra de Plínio Marcos tão contemporânea, pois podemos encontrar esses personagens em cada esquina de Fortaleza. Como em toda obra do autor,” O Abajur Lilás” expõe a alma humana. O ambiente é um bordel de quinta categoria, tendo à frente um bar, salpicado de luzes vermelhas. Há música de cabaré, cantada ao vivo. Ao fundo, o quarto na penumbra, onde ocorrem os programas e as tramas.

Confira a entrevista feita com o diretor do espetáculo, Edson Cândido:
CULTucando: Por que a escolha de Plínio Marcos para o tema da “Trilogia do Maldito”?
Edson Cândido: Em homenagem aos 10 anos da ausência de Plínio Marcos e por sua grandeza na dramaturgia, ele merecia muito mais do que apenas o um espetáculo, por isso resolvemos montar essa trilogia. A homenagem que pretendemos fazer ao dramaturgo Plínio Marcos não se extingue na representação ou reapresentação de três de seus textos. Prossegue demonstrando a importância do trabalho que realizou nos seus 64 anos de vida, escrevendo 40 peças e denunciando o poder constituído, dando voz aos menos favorecidos, bem como mostrando que os seus textos, apesar de escritos há décadas, continuam atuais.
CULT: Lidar com o universo marginal é sempre mais complicado que outras encenações. Como está sendo para você dirigir esse tipo de contexto?
EC: Um desafio, mas gostamos de desafios e aprendemos muito com eles e acredito que nesse processo aprendi muito com os atores e com o que vimos e ouvimos nas ruas. Temos que nos jogar e acreditar que podemos fazer teatro sério, pautado em pesquisas, em análises e estudos aprofundados como está acontecendo com O Abajur Lilás. Processo árduo e sofrido, mas bastante enriquecedor. Sou um privilegiado, pois tenho um elenco que acreditou no meu trabalho e confiou na minha direção e se entregou de corpo e alma para esse espetáculo, sem medo do feio, do ridículo, do sujo, do imoral, pois é isso que torna o nosso trabalho verossímil. O que o público irá ver é um retrato fiel do que encontramos de mais degradante e humilhante, e que as pessoas teimam em fingir que não existe. Mulher com cicatrizes profundas, prostitutas, homossexuais e marginais, vítimas e carrascos de suas vidas vazias.
CULT: Como foi a pesquisa para a criação da trilogia?
EC: Em “O Abajur Lilás”, a referência é a amnésia crônica que abate o Brasil acerca do período em que o povo esteve subjugado pelo Regime Militar. O cafetão Giro, depois de torturar as prostitutas por causa do abajur quebrado e matar Célia, a subversiva, que quer instaurar uma nova ordem, diz: “Ânimo gente! Esqueçam tudo, vamos se virar. Vão pra rua. Na volta ninguém mais se lembrará de nada. A putaria é assim mesmo. É assim mesmo.” (trecho do texto O Abajur Lilás). Todo trabalho inicial de pesquisa foi aprofundado pelas experiências vividas nas pesquisas de campo, fomos à boates, cinemas pornôs, saunas, a praças, ruas onde a prostituição acontece a céu aberto e conseguimos dar voz e corpo aos nossos personagens. Colocamos na peça recortes da realidade que encontramos em 1 ano e 3 meses de pesquisa.
CULT: A plateia não ficará como se habitualmente fica nos teatros convencionais, e sim em forma de barzinho, com mesas e cadeiras. Como surgiu a ideia?
EC: Nossa pesquisa de campo começou na Praça José de Alencar e entramos, no meio dela, num bar onde todos os personagens de Plínio estavam reunidos: prostitutas, homossexuais, homens à procura de sexo, bebidas, drogas, brigas e vimos que seria uma proposta interessante. Queremos transportar o público para esses lugares. O ambiente é uma boate de quinta categoria, tendo à frente um bar, com músicas de cabaré, cantadas ao vivo. Ao fundo, o quarto onde ocorrem os programas e as tramas. O público tem contato direto e real com o universo que Plínio queria mostrar. Teremos, sim, na plateia mesas e cadeiras, como em um bar, aonde iremos servir cachaça, com direito a música ao vivo e strip-tease.
CULT: Fazer teatro aqui no Ceará é também uma forma de incomodar e questionar a nossa sociedade tão provinciana?
EC: Sim, mas precisamos de loucos, pessoas atrevidas que toquem nas feridas. O diferencial do nosso grupo é esse. Queremos levar mais que diversão, queremos denunciar, informar, conscientizar, levar para cena coisas veladas, revelando a desesperança desses seres marginais neste mundo tão corrompido pela falta de ética. Queremos quebrar paradigmas, sufocar o falso moralismo. A dramaturgia de Plínio Marcos não permite ornamentos, porque é objetiva e direta, é olho no olho. Nela, ninguém é bom, ninguém é ruim. O sistema leva as personagens a tomar atitudes porque elas precisam sobreviver. Sobrevivência é a palavra chave. Os marginais de Plínio podem ser qualquer um, não importa a classe social.
CULT: Conte-nos como surgiu o Grupo Imagens de Teatro.
EC: O Grupo Imagens de Teatro teve origem em janeiro de 2002, quando seus integrantes iniciaram o estudo do texto de nome Meia-Sola, do mesmo autor da peça Imagens (Benê Rodrigues), que deu origem ao nome do grupo, estudo esse iniciado em uma oficina de teatro realizada no SESC. O grupo vem se destacando nos principais festivais regionais e nacionais, sendo contemplado com mais de 15 prêmios e tendo reconhecimento no cenário artístico. Sempre pautados na pesquisa de autores “malditos”, nessa linha de pesquisa estamos escrevendo nossa historia. Acreditamos num teatro que veio para incomodar a quem acha que a nossa sociedade é perfeita.
CULT: Faça uma análise sobre a atual produção teatral no Ceará.
EC: O Ceará é um celeiro de grandes artistas, o que nos falta é apoio do poder público. Como já disse, montamos “O abajur Lilás” com a cara e a coragem e é assim que se encontra a cultura no Ceará, morrendo e ressuscitando através de iniciativas próprias. Temos uma grande produção, porém falta conscientização da mídia, e estamos sempre correndo atrás de divulgação de espetáculos, de espaço na imprensa. Temos alguns cursos de formação. Temos o CEFET, que coloca muitos atores bons no mercado, mas ainda é
pouco. Há muita gente à procura de formação, de cursos, e a demanda é grande mas os recursos para cultura não insuficientes. A classe teatral está organizada e em busca de seus direitos e a maior prova disso é Cooperativa Cearense de Teatro, um movimento que visa a continuidade de ações culturais, como projeto de manutenção de grupos e ocupação de espaços públicos.
CULT: Quais as expectativas do grupo para a estreia de “Abajur Lilás”?
EC: Estamos ansiosos porque foi um processo árduo de mais de 1 ano, mas confiantes no trabalho, uma vez que o processo foi muito revelador e descobrimos muitas coisas lendo, assistindo a filmes emblemáticos como Anjos do Sol, Amarelo Manga, Querô entre outros. A convivência semanal nos puteiros, nas praças, na boca do lixo de Fortaleza contribuíram muito. Lógico que foi bastante difícil porque não temos nada a ver com esse universo. Agora é só colher os frutos de um trabalho sério, com atores que se debruçaram e se entregaram a um trabalho inovador no cenário artístico cearense.
Serviço:
O Abajúr Lilás
Local: Teatro Jose de Alencar (Sala Nadir Papy Sabóia)
Estreia: 1° de agosto
Horário: 19h
Dias: Sábados e domingos de agosto
Entrada: R$ 10,00 (inteira) R$ 5,00 (meia)
Informações: (85) 88341071
Blog: www.grupoimagensdeteatro.blogspot.com
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A matéria está maravilhosa, parabéns Zona Mix.
Obrigado Carla pelas palavras!
Um grande abraço.
Thiago Marinho
http://www.zonamix.com.br/cultucando
Não curto o trabalho desse grupo. Tomara que eles melhorem nesse próximo, mas pelas palavras do diretor não me animo mesmo. Muito pedinte. Mas parabéns pela matéria, já tinha lido a do Dias de Setembro e outras e já sou fão do site!
Olá André.
Obrigado pela participação no blog.
Esse espaço é para isso mesmo: geração de idéias e opiniões.
Um grande abraço.
Thiago Marinho
http://www.zonamix.com.br/cultucando
Gostaria de parabenizar a matéria e também o Grupo Imagens de Teatro, liderado pelo múltiplo e competente Édson Cândido. Assisiti a alguns espetáculos com o pessoal deste grupo e acredito muito no talento ousado deles! Felicidades aos leitores e leitoras deste Cultucando, Carlinhos Perdigão.
Olá Carlinhos, como vai?
Obrigado pelas considerações sobre o CULTucando. Faço o convite de sempre estar atento as nossas atualizações.
Um forte abraço!
Thiago Marinho
http://www.zonamix.com.br/cultucando
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