“Antes da Coisa Toda Começar”: A alma humana desnudada através do fazer teatral
Postado em 09, fev de 2012 por admin em Cênicos CULT
No último final semana, esse jornalista que vos escreve teve o prazer, quase que enlouquedor, de assistir a última obra da Armázem Companhia de Teatro, “Antes da Coisa Toda Começar”, no suntuoso Teatro José de Alencar. Durante dois dias fiz um mergulho, bem profundo, na alma humana vista pela ótica da arte teatral, e garanto a vocês que sai uma outra pessoa de lá. Alguém mais consciente de uma série de coisas. Consciente do que? Segredo!

A trama não segue tempo nem espaços definidos, mas traz personagens riquíssimos de sentimentos, vontades, desejos e com alma. Em um teatro abandonado, o fantasma de um ator que interpretava Hamlet declama alguns textos, que serão entrelaçados durante o espetáculo. A caveira, símbolo que se pregou à imagem do personagem de Shakespeare, também está em cena. Com o detalhe de ganhar um nariz de palhaço.

Além do fantasma, o espetáculo tem Zoé (Patrícia Selonk), que mantém uma relação complicada com o irmão que beira o incesto e a obsessão. Léa (Rosana Stavis), uma cantora fracassada que tenta o suicídio e vive ao fio da navalha seu relacionamento com a irmã. Téo (Paulo de Moraes, também diretor da peça), ator também fracassado, diante da impossibilidade da representação.
Se há, neste novo espetáculo, uma série de elementos comuns a outras peças do grupo, avulta a trilha sonora, com execução pelo próprio elenco e produção musical de Ricco Viana, que montou uma verdadeira banda de rock em cena. Competente por sinal!

Ao ver o espetáculo, é notório que os atores não só declamam textos, eles sentem de verdade as emoções dos personagens, algo que é sentido por nós, enquanto público. Outro ponto acertado é a iluminação perfeita feita pelo mago Maneco Quinderé, que fecha a trama em toda a sua perfeição.
O que era utilizado no espetáculo anterior da Armazém “Inveja dos Anjos”, a sutileza e a memória, são trocados pelas tormentas da vida, esperanças perdidas e futuros interrompidos. A peça trata exatamente daqueles momentos em que nos sentimos capazes de tudo. São faces de uma mesma moeda, limites frágeis.

O tempo e o espaço se misturam nessa que é mais uma tentativa do grupo de contar histórias, mesmo que, como diz um dos personagens, “a vida não siga em linha reta e os fatos não se encaixem uns nos outros como peças de um quebra-cabeças”. Detalhe: esses “quebra-cabeças” são construídos com a vivência de cada espectador que comprou seu ingresso.
Quem não foi, realmente perdeu uma grande oportunidade de encher os olhos, ouvidos e tentar entender um pouco a alma humana, através da arte. O espetáculo segue, neste final de semana (10, 11 e 12/02), em Natal (RN), no Teatro Alberto Maranhão. Se você estiver na cidade, corra!!!
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